Palavra do dia – Martha Medeiros

“Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche”.

– Martha Medeiros –

Tudo ainda está aqui.

O mundo ainda existe. Eu achei que ele ia desabar quando você deixou de fazer parte dele, mas, por incrível que pareça, ele ainda sobrevive. O céu também. Mais cinzento aos meus olhos, mas ainda está lá quando olho pra cima. Nossa casa ainda está aqui, no mesmo endereço, do mesmo jeito. A aparência interna está um pouco diferente, fizemos algumas reformas, (inclusive agora tem o portão eletrônico que você tanto queria… lembra como era ruim ter de sair do carro para abrir? Rs) mas não nos mudamos. Apesar de todos os cantos terem uma lembrança sua, eu prefiro isso a ter que me mudar para uma casa onde você não esteve, não pisou, não dividiu momentos comigo. Suas roupas, nem todas estão mais aqui. Demos algumas para familiares, amigos ou para necessitados. Mas ainda temos algumas, aquelas que você gostava mais, por exemplo. Sou mórbida mesmo, aquele seu blusão roxo eu guardo comigo, lembro até da última vez que você o usou e nunca o lavamos. Enfim, seu quarto ainda está aqui, bom, na verdade não mais com suas coisas, doía muito ir ao banheiro de madrugada, passar pela sua porta e me dar conta de que você não dormia mais na sua cama, intacta, arrumadinha demais. Mas ele ainda está aqui, sempre será seu quartinho. As pessoas ainda estão ai, algumas se foram depois de você, como a nossa bisavó e nossa avó, mas a maioria está aí, levando suas vidas em frente, trabalhando, estudando, batalhando. Aliás, não temos escolhas, temos? A vida não nos dá a opção de parar, ela exige movimento. Confesso que, para a maioria das pessoas, tudo permanece exatamente do mesmo jeito, a vida delas está, digamos, normal, plena. Não que elas não te amem como nós, era impossível não amar você, mas a dor não deixou cicatrizes nelas como deixou em nós, aqui de casa. Esse buraco só é aberto no peito de quem esteve a vida inteira ao seu lado e jurava que duraria para sempre. Os restaurantes que você gosta, os filmes, os jogos, os brinquedos, seus amigos, tudo está aqui ainda. Seus amigos estão crescendo e eu perdi a referência, o parâmetro para saber a idade deles. Me assustei quando soube que o baile de formatura, que também seria o seu, aconteceu. Me toquei que hoje você já seria um homem e não mais aquele garoto que sempre vou ter em mente. Tudo está, aparentemente, normal. Até as luzes de natal estão aí, firme e forte pela cidade. As coisas que nos deixavam felizes ainda existem, mas perderam aquele sabor, sabe? Aquela sensação de vida leve, tranqüila, divertida… quando tudo o que te falta são apenas coisas e não pessoas, não você. Enfim, como eu venho dizendo, quase tudo ainda está aqui. Eu, afinal, percebi que as coisas não se desmoronam quando a gente pensa que vão desmoronar, não acabam quando a gente quer que acabem, elas perdem o sentido que tinham, claro, mas resistem a essas tempestades da vida. A força que acreditamos que não temos (e não temos mesmo) surge de algum lugar, como se a única opção fosse segurá-la e, então, a gente se segura nela e vai, meio que por impulso. Talvez fingindo que você está apenas fazendo uma viagem ou algo do tipo. Só que, às vezes, essa mesma força sai de cena, nos fazendo desativar o piloto automático e se entregar a fraqueza. Mas, depois de um tempo, ela resolve voltar para novamente nos dar a bengala que sustenta a caminhada. Eu também estou aqui, embora uma parte tenha ido com você. Embora sem aquela ‘eu’ inocente, sonhadora e cheia de manias infantis que só você entendia. A ‘eu’ de hoje é mais realista, pé no chão e insegura com relação à vida, vida que se mostrou muito frágil com a sua partida repentina. Mas essa EU, que ainda está aqui, é a mesma irmã, fã, admiradora, puxa-saco, que nutre e sempre vai nutrir um amor imensurável por você. Há momentos que eu sinto que minha vida é um quebra-cabeça que nunca será completado. Mesmo que tudo daqui em diante dê certo, mesmo que eu consiga encaixar todas as peças, ele nunca será finalizado, sempre vai faltar a sua peça. A sua presença. Vai faltar você. E essa falta não vai passar, eu sei, só mudar. Como diz a sábia Martha Medeiros, o tempo não cura nada, só tira o incurável do centro das atenções….

Inaugurando..

Olá!
Para abrir meu blog, escolhi uma crônica da escritora Martha Medeiros, que fala de saudade e marcou muito a minha vida
Espero que gostem.

SAUDADE

“Em alguma outra vida devemos ter feito algo de muito grave ou ruim para sentirmos tanta saudade”

Trancar o dedo numa porta dói.
Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói.
Um tapa, um soco, um pontapé doem.
Dói bater a cabeça na quina da mesa.
Dói morder a língua, dói cárie, dói cólica e pedra no rim.
Mas o que mais dói é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe.
Saudade de uma cachoeira de infância.
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais.
Saudade do pai que morreu do amigo imaginário que nunca existiu.
Saudade de uma cidade.
Saudade da gente mesmo que o tempo não perdoa.
Doem essas saudades todas, mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos.
Saudade da presença e até da ausência consentida.
Você podia ficar no quarto e ela na sala, sem se verem,
Mas sabiam-se lá.
Você podia ir para escola e ela para o trabalho ou para a faculdade, mas sabiam-se onde.
Você podia ficar o dia sem vê-la, e ela o dia sem vê-lo, mas sabiam-se o fim de semana.
Contudo, quando o sentimento de um acaba ou torna-se menor ao outro sobra apenas uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber.
Não saber se ele continua fungando na hora de dormir.
Não saber se ela ainda carrega aquela mochila para qualquer lugar que ela vá.
Não saber se ele continua amando macarrão.
Não saber se ela continua a ser tão ciumenta e neurótica.
Se ele continua assistindo as aulas.
Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre de dieta.
Se ele continua adorando vodka.
Se ela está fumando menos.
Se ele continua sorrindo daquele jeito lindo.
Se ela aprendeu a pensar mais com a cabeça do que com o coração.
Se ele continua levando tudo na sacanagem.
Se ela continua viciada em doce.
Se ele continua usando aquele samba-canção engraçada.
Se ela continua gostando tanto dele como antes mesmo depois de tudo que aconteceu.
Se ele continua sendo tão fechado daquele jeito por medo de sofrer.
Se ela continua a ser tão romântica.
Se ele continua a ser tão bom de papo.
Se ela ainda ama açaí.
Se ele continua com aquele sotaque e girias engraçadas.
Se ela continua loira.
Se ele continua adorando suco de maracúja.
Se ela ainda usa óculos.
Se ele ainda usa o mesmo corte de cabelo.
Se ela continua com aquela pele branca feito vela.
Se ele continua com aquele problema de suar demais.
Se ela continua a confiar em todo mundo e se ele continua achando isso tão errado.
Saudade é não saber mesmo.
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais longos.
Não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento.
Não saber como frear as lágrimas diante de uma música.
Não saber como vencer a dor de um silencia que nada preenche.
Saudade é não querer saber se ele está com outra e ao mesmo tempo querer.
É não saber se ela está feliz e ao mesmo tempo perguntar a todos por isso.
É não quere saber se ele está mais magro, se ela está mais bela.
Saudade é nunca mais saber de quem se ama e ainda assim doer.
Saudade é isso que senti enquanto estive escrevendo e o que você provavelmente está sentindo depois do que acabou de ler.

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