Palavra do dia – Caio F. Abreu

Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso. A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão. Caio Fernando de Abreu

Tudo ainda está aqui.

O mundo ainda existe. Eu achei que ele ia desabar quando você deixou de fazer parte dele, mas, por incrível que pareça, ele ainda sobrevive. O céu também. Mais cinzento aos meus olhos, mas ainda está lá quando olho pra cima. Nossa casa ainda está aqui, no mesmo endereço, do mesmo jeito. A aparência interna está um pouco diferente, fizemos algumas reformas, (inclusive agora tem o portão eletrônico que você tanto queria… lembra como era ruim ter de sair do carro para abrir? Rs) mas não nos mudamos. Apesar de todos os cantos terem uma lembrança sua, eu prefiro isso a ter que me mudar para uma casa onde você não esteve, não pisou, não dividiu momentos comigo. Suas roupas, nem todas estão mais aqui. Demos algumas para familiares, amigos ou para necessitados. Mas ainda temos algumas, aquelas que você gostava mais, por exemplo. Sou mórbida mesmo, aquele seu blusão roxo eu guardo comigo, lembro até da última vez que você o usou e nunca o lavamos. Enfim, seu quarto ainda está aqui, bom, na verdade não mais com suas coisas, doía muito ir ao banheiro de madrugada, passar pela sua porta e me dar conta de que você não dormia mais na sua cama, intacta, arrumadinha demais. Mas ele ainda está aqui, sempre será seu quartinho. As pessoas ainda estão ai, algumas se foram depois de você, como a nossa bisavó e nossa avó, mas a maioria está aí, levando suas vidas em frente, trabalhando, estudando, batalhando. Aliás, não temos escolhas, temos? A vida não nos dá a opção de parar, ela exige movimento. Confesso que, para a maioria das pessoas, tudo permanece exatamente do mesmo jeito, a vida delas está, digamos, normal, plena. Não que elas não te amem como nós, era impossível não amar você, mas a dor não deixou cicatrizes nelas como deixou em nós, aqui de casa. Esse buraco só é aberto no peito de quem esteve a vida inteira ao seu lado e jurava que duraria para sempre. Os restaurantes que você gosta, os filmes, os jogos, os brinquedos, seus amigos, tudo está aqui ainda. Seus amigos estão crescendo e eu perdi a referência, o parâmetro para saber a idade deles. Me assustei quando soube que o baile de formatura, que também seria o seu, aconteceu. Me toquei que hoje você já seria um homem e não mais aquele garoto que sempre vou ter em mente. Tudo está, aparentemente, normal. Até as luzes de natal estão aí, firme e forte pela cidade. As coisas que nos deixavam felizes ainda existem, mas perderam aquele sabor, sabe? Aquela sensação de vida leve, tranqüila, divertida… quando tudo o que te falta são apenas coisas e não pessoas, não você. Enfim, como eu venho dizendo, quase tudo ainda está aqui. Eu, afinal, percebi que as coisas não se desmoronam quando a gente pensa que vão desmoronar, não acabam quando a gente quer que acabem, elas perdem o sentido que tinham, claro, mas resistem a essas tempestades da vida. A força que acreditamos que não temos (e não temos mesmo) surge de algum lugar, como se a única opção fosse segurá-la e, então, a gente se segura nela e vai, meio que por impulso. Talvez fingindo que você está apenas fazendo uma viagem ou algo do tipo. Só que, às vezes, essa mesma força sai de cena, nos fazendo desativar o piloto automático e se entregar a fraqueza. Mas, depois de um tempo, ela resolve voltar para novamente nos dar a bengala que sustenta a caminhada. Eu também estou aqui, embora uma parte tenha ido com você. Embora sem aquela ‘eu’ inocente, sonhadora e cheia de manias infantis que só você entendia. A ‘eu’ de hoje é mais realista, pé no chão e insegura com relação à vida, vida que se mostrou muito frágil com a sua partida repentina. Mas essa EU, que ainda está aqui, é a mesma irmã, fã, admiradora, puxa-saco, que nutre e sempre vai nutrir um amor imensurável por você. Há momentos que eu sinto que minha vida é um quebra-cabeça que nunca será completado. Mesmo que tudo daqui em diante dê certo, mesmo que eu consiga encaixar todas as peças, ele nunca será finalizado, sempre vai faltar a sua peça. A sua presença. Vai faltar você. E essa falta não vai passar, eu sei, só mudar. Como diz a sábia Martha Medeiros, o tempo não cura nada, só tira o incurável do centro das atenções….

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